Um conto de Páscoa - Vento no Rosto

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Palavras ao vento

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Um conto de Páscoa

Foi pela fresta da porta que o vi pela primeira vez. Meus olhos se arregalaram e meu coração batia na garganta. Eu tinha apenas 5 anos, mas me lembro como se fosse hoje. Meu pai havia acordado bem cedo. Quando ele veio nos chamar, meu irmão e eu já estávamos acordados, pois sabíamos que algo aconteceria, afinal, era domingo de Páscoa.

Sentimos a agitação quando ele entrou no quarto e disse: corram, eu ouvi a corneta do coelhinho da Páscoa. Saímos correndo. Quando meu pai abriu bem lentamente a porta do quintal, eu pude ver, bem ali atrás da moita as orelhas do coelho. Era ele! Eu mal podia acreditar naquilo. Até hoje quando me lembro, parece que sinto novamente aquela sensação!

Quando saímos correndo por aquela porta, eu ainda mais rápido do que meu irmão, que era mais novo, o coelho nem se mexeu. Pensei: vamos pegá-lo! E, no entanto, quando chegamos perto, vimos que o coelho não estava ali. Ele havia passado e deixado os presentes e parte de seus pelos enroscados naquela vassoura. Mas parecia tanto com as orelhas do coelho!

Aquela sensação de encantamento perdurou por anos e anos. E foi por isso que mesmo quando deixei de acreditar em coelhinho da Páscoa, já adolescente, me tornei parceira de meu pai para as peripécias da Páscoa.

A parceria

Nessas alturas, eu já tinha duas irmãs e dois irmãos. E adorava partilhar a criatividade e a alegria do meu pai para esconder os ovos, os presentes e tornar a nossa Páscoa ainda mais especial. Fiz isso pelos meus irmãos, mas também por mim. Eu não queria abandonar aquela deliciosa sensação que envolvia a Páscoa da nossa família.

Era festa, era alegria, era magia, era amor. Um amor que sempre nos envolveu e que se expandiu até transbordar. Um amor que até hoje encanta quem se aproxima da nossa Família. Participar daquela brincadeira de Páscoa, mais do que alegrar a criançada, era uma forma de propagar esse amor.

Brilho nos olhos

Os olhos de minha mãe (Didi) brilhavam quando me contou essa história. Foi num domingo de Páscoa também e meu coração se encheu de alegria pela possibilidade de registrá-la. Eu entendia que era uma forma de honrar o meu avô, Oswaldo Prendes, que tantas boas lembranças deixou para seus filhos. Eu não o conheci, mas o conheço um pouco mais a cada vez que ouço minha mãe ou meus tios falarem sobre ele.

Com meus tios, Marisa, Sandra e Rogério, a conversa foi por áudio, então não pude ver o brilho nos olhos, mas pude sentir a doçura na voz e a alegria por relembrar momentos tão gostosos. As respostas imediatas também me revelaram o quanto eles têm tão boas lembranças de sua infância.

Uma infância construída nesse sólido alicerce que meu avô e minha avó, Ottília de Souza Prendes, iniciaram em 29 de dezembro de 1938, quando se casaram. Ou antes ainda, quando conviviam na adolescência, já que eram primos. Foi sobre esse alicerce do amor e do enfrentamento dos desafios que a Família Prendes cresceu, recebeu novos agregados e até hoje dá continuidade a esse legado de amor.

A chegada do grande dia

A ansiedade pela Páscoa começava no início da semana. Minhas tias estudavam em escola de Freira, então, os preparativos e as orientações para a Semana Santa começavam cedo: “na Sexta-feira não se come carne, hein?”.

Quando a vó Ottília servia para a família aquela bacalhoada divina (missão assumida anos depois pelo João Bandeira), a criançada já sabia que o domingo de Páscoa se aproximava. A malhação do Judas ocorria no sábado, era a véspera. As crianças contavam os dias para a Páscoa chegar.

Todos acordavam cedinho no domingo. A casa na Rua Caraíbas, 563, era um sobrado. A criançada queria descer, mas a Didi, a primogênita, não deixava: “calma, o Coelhinho da Páscoa ainda não passou. Se vocês descerem, podem assustá-lo e ele não passa mais. Precisamos aguardar a corneta dele”, dizia.

A criançada podia jurar que tinha ouvido o toque. “Eu ouvi o sininho, eu ouvi”, dizia Sandra, a caçula das mulheres. Mas enquanto a primogênita não ouvisse também, a porta não podia ser aberta. A ansiedade era grande. Parecia até que faltava o ar.

A euforia para tentar encontrar o coelhinho da Páscoa era responsável por manter a agitação no ambiente. Como seria o tal coelho? Na imaginação da Marisa ele era grande e tinha mãos, e não patas, porque sempre deixava ali muitos presentes.

Toda a família reunida

O domingo de Páscoa era um dia de reunião de toda a família. Quando a vó Sebastiana era viva, a reunião ocorria na casa dela, também em Perdizes. Depois que ela faleceu, o encontro passou a ser na casa de minha avó, na Caraíbas.

E todos ganhavam presentes, não eram só os filhos do meu avô. Os sobrinhos, os irmãos, os cunhados (que também eram seus primos), enfim. E cada presente tinha um cartãozinho, onde se registrava algum acontecimento marcante ou uma bela mensagem.

Os pacotes ficavam escondidos. Inicialmente no quintal. Mas desde que a minha tia Sandra completou 7 anos, a situação mudou. Isso porque o Astro passou a fazer parte da família, então os presentes ficavam escondidos dentro de casa. O Astro era um pastor alemão – lindo – que dominava o quintal e os corações de todos. Quem se lembra dele?

Em busca do coelho

Depois que o coelhinho passava, a ansiedade de encontrá-lo dava lugar à euforia para encontrar o seu presente. “Eram tantos nomes ali que parecia que nunca chegava o meu”. Essa era a sensação dos meus tios, todos relataram essa espera. E imagino que os meus primos – como eu – irão se identificar ao ler esse trecho porque essa era a sensação que tínhamos quando criança, no Natal, diante daquela árvore lotada de presentes.

Mas voltando à Páscoa, a casa da minha avó era grande, então havia muitos lugares onde os pacotes poderiam estar escondidos. Em uma das vezes, a criançada rodou pela casa toda para encontrar os presentes, que estavam ali, bem debaixo de seus olhos, escondidos embaixo da mesa da cozinha onde todos tomavam o café da manhã. Oras, mas quem queria se sentar para tomar o café da manhã assim acordava no domingo de Páscoa? O que eles queriam mesmo, era encontrar o coelhinho… e os presentes!

Durante a caça aos tesouros, a primogênita apimentava a situação dizendo: “ih, será que não teremos presentes? Será que coelhinho não veio neste ano?”. Os corações disparavam.

O topo da árvore, o quintal, o enorme terraço anexo ao quarto de meus avós antes da reforma, a sala, enfim, foram vários os esconderijos encontrados ao longo dos anos naquela casa. Era tão divertido, que ninguém queria abrir mão de acreditar no coelhinho da Páscoa. Mesmo que houvesse uma desconfiança de que ele não existia. A espera para o domingo de Páscoa trazia uma sensação que preenchia todos os corações.

Rogério, o caçula dos cinco irmãos, era o que tinha mais dificuldade para encontrar os presentes. Talvez por ser muito pequeno. Ainda assim, ele tem recordações interessantes da Páscoa, umas tão alegres como a dos irmãos, outras mais impressionantes.

O sentido da Páscoa

Embora fossem muito tementes a Deus, meus avós não tinham o hábito de ir à missa quando a minha mãe era nova. Viviam o Evangelho no lar, mas não participavam da comunidade. Apenas quando minha mãe começou a participar ativamente da igreja, eles começaram a acompanhá-la e passaram a ir à missa também.

Talvez por isso, o meu tio Rogério se lembre tanto de acompanhar seus pais na igreja para ver os santos todos cobertos por um pano roxo! Aquilo era impressionante para uma criança e até hoje não saiu de sua memória.

A Páscoa da infância de meus tios, veementemente registrada em suas memórias (e agora nas nossas), é uma Páscoa cheia de alegria, de união e de uma certeza: a de que família deve estar reunida no amor de Cristo. E que como o açúcar do leite ou do chocolate, Ele pode até não ser visto, mas é docemente sentido.

Que a ressurreição do Cristo seja para nós a certeza de que mesmo não tendo sido possível, mais uma vez, nos reunirmos, estamos unidos em comunhão e estaremos reunidos muito antes do que imaginamos, quando um novo momento ressurgir, possibilitando que os calorosos abraços e beijos doces da Família Prendes se consolidem presencialmente… e sempre na presença de Jesus.

Suzana Amyuni

Vento no Rosto

 

2 respostas para “Um conto de Páscoa”

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